O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se recusou a comentar ou apoiar a carta publicada pelo senador Flávio Bolsonaro, na qual este se apresentava como o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil. Em declaração, Trump afirmou que não vai se envolver no assunto, embora tenha recebido autorização para entrada no país. “Foi uma eleição muito estranha. Achei que eles foram tratados de forma muito injusta e, como vocês sabem, não tomei partido na eleição. Mas, quando vejo algo que é inadequado, eu comento a respeito”, disse.

O governo brasileiro adotou uma estratégia de silêncio inicial em relação às questionamentos de Trump sobre o processo eleitoral. O Palácio do Planalto avaliou a possibilidade de responder oficialmente, mas decidiu por não alimentar a tese de conspiração. A orientação é de ignorar Flávio Bolsonaro, salvo em caso de ação coordenada com os EUA que possa violar a soberania nacional. Se Trump insistir em repetir a desinformação sobre fraude, o Brasil indicou que usará relatórios do Carter Center e da OEA para desmontar a narrativa.

A esperança de Brasília é estabelecer uma “relação pragmática” com a Casa Branca, mesmo com a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. O governo considera que a família Bolsonaro já está “entrincheirada” no país e que um pedido de extradição não será aceito. A aposta é que a correlação de forças mude, com Lula fortalecido nas urnas e Trump enfraquecido pelas eleições legislativas de novembro nos EUA.

O primeiro passo para a reestruturação das relações bilaterais será a retomada da negociação de um acordo comercial, superando meses de crise diplomática. O governo espera que o Escritório de Comércio dos EUA (USTR) proponha um cronograma para solucionar as tarifas pendentes entre os dois países. Além disso, há a expectativa de que a autorização para o embaixador de Trump assumir o cargo em Brasília seja retomada.

O Brasil já indicou que tratará o embaixador escolhido pela Casa Branca, Daniel Perez, com reciprocidade, da mesma forma que a embaixada em Washington, Maria Luiza Viotti, é tratada. Nos últimos meses, o visto de Viotti foi modificado, impedindo-a de sair dos EUA sem nova autorização. O que vai prevalecer é a reciprocidade, sem que o Brasil dê melhor tratamento ao americano.

Há ainda uma sinalização de que a ala mais ideológica do governo dos EUA, liderada por Marco Rubio, foi enfraquecida com a vitória de Lula, abrindo espaço para grupos que querem trabalhar com o Brasil. O grande desafio para os próximos anos, segundo o Palácio do Planalto, é construir uma relação estável com Trump, apoiando-se na correlação de forças favorável.